terça-feira, 9 de janeiro de 2018
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Lei de Serviço de Acesso Condicionado
Por Ascom / Funceb
A Lei de Serviço de Acesso Condicionado
(SeAC – Lei 12.485/11), os novos rumos da produção audiovisual para a televisão
do Brasil e os impactos econômicos e sociais no setor independente serão
discutidos em encontro na próxima terça-feira, 26 de fevereiro, às 17 horas, na
Sala Walter da Silveira (Barris – Salvador). Na pauta, estarão questões
relativas à difusão de trabalhos através da televisão, fundos e mecanismos de
apoio disponíveis e propostas de como potencializar as oportunidades criadas. A
reunião é aberta ao público em geral, especialmente a todos os profissionais do
Audiovisual na Bahia.
![]() |
|
Ocupando espaços públicos, as
TV's por assinatura devem
promover a cultural regional
como retorno à população
|
Sancionada em 12 de setembro de 2011,
a SeAC determina que os canais de TV por assinatura devem promover a cultura
brasileira e estimular produções independentes e regionais, reservando parte de
sua programação a conteúdos brasileiros. Além disso, o Fundo Setorial do
Audiovisual garante a aplicação do mínimo de 30% da sua receita para produções
do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que vem a gerar uma injeção orçamentária
para o audiovisual das três regiões e uma demanda crescente de novos produtos. Neste
contexto, o debate sobre a temática torna-se importante para realizadores e
profissionais do Audiovisual da Bahia.
O encontro é promovido pela Diretoria
de Audiovisual (DIMAS) da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB),
entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), em parceria
com a Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV/ABD-Ba) e Associação de
Produtores e Cineastas da Bahia (APC-BA).
Encontro
de debate do setor Audiovisual sobre a Lei 12.485/11
Quando: 26 de
fevereiro de 2013 (terça-feira), 17 horas
Onde: Sala Walter da
Silveira
Rua
General Labatut, 27 – Barris – Salvador, Bahia
Subsolo
da Biblioteca Pública do Estado da Bahia
Aberto ao
público
Informações: 71 3116-8102
Realização: ABCV/ABD-Ba/ APC-BA/
DIMAS/ FUNCEB/ SecultBA
------------------------------------------------------
Assessoria de Comunicação
Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB
(71) 3324-8565/ 8566
asc.funceb@gmail.com
Nivia
Cerqueira – comnivia@gmail.com | (71)
8808-2446
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Rouanet: lei de incentivo a cultura ou mercado?
Por Marcelo
Lopes
Ao
se gabar de ocupar a sexta economia mundial, o Brasil mal discute em que
condições isso ocorre: altíssima concentração de renda, educação
insatisfatória, saúde pública precária, segurança caótica e outros aspectos tão
graves quanto. Com estatísticas que entabulam a lógica das médias estatísticas,
os extremos do nosso dia-a-dia são mascarados entre uma distração midiática e
outra. É como dizer que se a cabeça está no forno e seus pés estão na
geladeira, na média você está bem. O país está entre os que mais paga impostos
no mundo e, segundo o Instituto
Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), hoje, para que um cidadão economicamente
ativo dê conta de todos os impostos, taxas e contribuições que o cercam a cada
esquina e dentro de casa, são necessários quase a cinco meses do seu suor até
que ele comece a receber para si mesmo.
Em
tese, tudo isso deve ser revertido para estruturas, ações, programas e
políticas de interesse público, que promovam a cidadania no seu sentido mais
amplo, a superação dos diversos modelos de exclusão social, permitindo, em
essência, o desenvolvimento humano do seu próprio povo. Fatores como educação,
saúde, geração de emprego e renda, moradia, segurança e cultura são
fundamentais.
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| Diversidade culural x interesses de mercado |
Uma
vez me perguntaram o que exatamente é esse tal de “interesse público”. Embora o
conceito não encontre consenso entre os que os discutam, em linhas gerais, entende-se
como sendo aquilo que promova o bem comum, o bem-estar geral. Nele que devem
centrar todas as ações e realizações dos governos, matéria-prima na qual se
extraem as leis que regem o desenvolvimento de uma sociedade. Por isso, quando
vejo algumas situações postas, não dá para não questionar.
Após
a polêmica do blog da Maria Bethania, aprovado pelo Ministério da Cultura, por
meio da Lei Rouanet, no valor de R$ 1,3 milhões, para criação de um site onde a
cantora baiana declamaria poesias, a bola da vez é a aprovação de R$ 5,9
milhões para a turnê da cantora Claudia Leitte.
Para
quem não conhece o mecanismo, a Lei Rouanet possibilita
que cidadãos (pessoa física)
e empresas (pessoa jurídica) apliquem parte do Imposto de Renda devido em ações culturais. A proposta cultural pode dar conta de diversos segmentos (teatro, dança, circo, música, literatura, artes
plásticas e gráficas, gravuras, artesanato, patrimônio cultural e audiovisual). Uma vez aprovado, a Lei permite
que o projeto capte recursos junto a patrocinadores potenciais para a execução
da proposta. Trocando em miúdos, o imposto pode ser empregado para financiar
qualquer iniciativa cultural, não importando se ela tem ou não o mérito real do
“interesse público” ou se é meramente mais um empreendimento comercial.
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| As discussões sobre a Lei Rouanet ainda tramitam |
Se
não é possível chegar a um ponto definitivo sobre o que é interesse público,
algumas questões precisam ficar em foco, para que o relativismo do termo não dê
margem a outras distorções:
1)
Um recurso que poderia ser empregado em iniciativas que promovam a “proteção e promoção da diversidade cultural
brasileira (...) que se expressa em práticas, serviços e bens artísticos e
culturais determinantes para o exercício da cidadania”, como dispõe o Plano
Nacional de Cultura, pode realmente se disponibilizado para gerar lucro num
empreendimento comercial de alta rentabilidade?
2)
Os simples critérios técnicos e jurídicos dos analistas do MinC dão conta
realmente de chegar ao mérito público de uma proposta?
3)
Qual o filtro que nos garante que a visão do marketing das empresas acabe
tirando dinheiro das produções que realmente precisam de apoio?
4)
Como tornar o mecanismo de captação mais democrático, atendendo efetivamente ao
desenvolvimento de ações de benefício ao cidadão sem que, necessária e
exclusivamente, isso se torne um investimento de retorno financeiro ao
apoiador?
Estes
e outros questionamentos vem se estendendo ao longo dos anos, apontando a
necessidade de reforma da Lei Rouanet, visivelmente repleta de brechas e
interpretações muito convenientes. Acredito que seja também papel do Ministério
da Cultura fomentar iniciativas que dinamizem o mercado, que gerem emprego e
renda, mas não é função do estado bancar o lucro de ninguém com o dinheiro
público, sobretudo iniciativas mais do que sustentáveis e autônomas. Existem
outras prioridades que merecem mais atenção e direcionamento.
![]() |
| Foto: blogs.estadao.com.br |
Segundo
Henilton Menezes, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, em entrevista à
Radio Câmara,
a lógica do mecanismo – ainda longe do que precisa ser para dar conta de
prioridades mais democráticas – permite legalmente distorções como estas: “É
óbvio que a classe empresarial vai tentar buscar recursos naquilo que tem mais
poder de sedução, de visibilidade de marca. Não está errado, porque se tem uma
lei que protege isso, se eu tenho no Brasil, eu pensando como empresário, um
mecanismo absolutamente legal, em vigor, que permite que eu dê R$ 100 para uma
peça de teatro e receba de volta esses R$ 100, por que eu vou dar R$ 100 e não
vou buscar esse dinheiro de volta?".
Para
o que nos importa, o fato é que situações como os quase seis milhões
autorizados à captação por Claudia Leitte demonstram que o mercado é a
prioridade, não a cultura; que é a empresa escolhe o artista, divulga a sua
marca no espetáculo, mas quem paga a conta são os cofres públicos. Não cabe
aqui nem mesmo a discussão sobre o limite entre Cultura e Entretenimento. Sem
entrar no mérito de conteúdo ou qualidade artística da baianizada cantora
carioca, o fato é que uma turnê que cobra valores consideráveis em ingressos financiados
com recursos oriundos de impostos não é exatamente o que se pode chamar de
interessante para nossos bolsos nem mesmo um evento “popular”. Como também não
foi popular a vinda do Cirque du Soleil
para o Brasil, em 2006, tendo entre os patrocinadores o Bradesco, cobrando
valores de R$ 100,00 a R$ 250,00 numa época em que o salário mínimo era R$
350,00.
A
Economia Criativa é uma das mais potentes atividades da economia mundial, mas o
orçamento do nosso Ministério da Cultura não chega a 1% do Orçamento da União.
Desse pequeno percentual, grande parte se perde em meio a “buracos técnicos”
que permitem desvios impressionantes dos objetivos mais primários da promoção
desta mesma cultura que tentamos promover. Até que sejamos levados a sério,
corremos sério risco de ver a próxima edição do Big Brother Brasil ir ao ar com
uma chancela da Lei de Incentivo.
By
Instituto Mandacaru
a la/s
fevereiro 23, 2013
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Vitória da Conquista
Santa Maria também é aqui
Por Marcelo
Lopes
O
historiador e crítico, Paulo Emílio Sales Gomes, observava em seu livro
“Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”, que a sétima arte no Brasil teve
suas primeiras vivências ligadas às iniciativas de gringos, principalmente
italianos, porque, segundo se dizia no país, se qualquer coisa era muito
complicada deveria ser da conta de estrangeiros, se era muito braçal ficaria a
cargo de negros e outras pessoas de menos polidez. Outros tantos aspectos da
história de formação do povo brasileiro e sua herança ibérica destacam o que
nos foi legado: a pouca capacidade de planejar a médio e longo prazo uma vida
prática para o bem comum; uma supervalorização do que nos é externo em proporcional
desvalorização ao que é nosso e original; e, principalmente, uma inabilidade de
separar interesses privados daquilo que é de interesse público, como bem
analisou o pensador Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil.
Historicamente
tivemos pouco tempo e circunstância para dedicarmos ao senso mais básico de uma
autoestima nacional. Somos um povo com apenas cinco séculos de existência
reconhecida, o que equivale dizer que oficialmente não damos a mínima para os
demais séculos de história nativa pré-ocupação europeia. Dos nossos cinco
séculos oficiais, contabilizamos quatro de escravidão legalizada. A educação brasileira também teve uma trajetória de obstáculos, sem poder ser exercida em
território nacional durante muito tempo, para que a população não se tornasse
esclarecida e incômoda. A independência de Portugal não nos tornou
independentes dos portugueses, que continuaram por aqui como imperadores. A
República se fez sem que o povo tomasse conhecimento e, tempos depois, para
ficar longe das vistas e da convivência pública, o centro oficial de poder
mudou-se da antiga Guanabara (hoje estado do Rio de Janeiro) para uma área erma
no meio de uma terra de ninguém e que veio a se chamar Brasília.
A
falta da incorporação consciente de regras de convívio social e cidadã às
práticas do dia-a-dia é um componente da realidade brasileira. O pragmatismo sem
a mediação eficaz das leis redunda no chamado jeitinho brasileiro, um hábito
comum de contornar as regras estabelecidas. A Constituição brasileira,
exemplarmente construída como uma das mais bem elaboradas do mundo mal sai do
papel e acaba sofrendo uma espécie de síndrome do photoshop, mascarando uma realidade que não condiz com o conteúdo. Isto
porque, leis sem aplicação e fiscalização que as garantam não surtem efeito ou
servem apenas para o benefício de poucos.
A
recente tragédia da cidade de Santa Maria (RS), onde mais de duzentos e trinta
jovens morreram no incêndio de uma boate local, levanta todas estas questões de
forma muito pertinente, mas também assustadora. Mostra que muitas práticas
ainda hoje não têm correspondência direta com a aplicação das normas que as
regulam, a não ser quando já é tarde demais. Visualizem comigo: um espaço de
shows, eventos, desfiles ou encontros públicos de qualquer natureza, com
ambiente lotado além da conta, normalmente com uma ou no máximo duas portas de
entrada/saída e pessoas se acotovelando para ver algum tipo de espetáculo,
desenhando uma situação de perigo potencial. Faça um exercício mental e rápido:
quantos lugares como este existem na sua cidade?
Num
município como Vitória da Conquista, onde grandes áreas de apresentação e espaços
alternativos tendem a se multiplicar, esta preocupação é antiga. Muitas
estruturas existentes não atendem às normas de segurança, funcionando sem
maiores cuidados obrigatórios. Shows pequenos ou grandes, facilmente mantém
lotação além do permitido, sem plano de segurança e evacuação. Não é comum que
se registre, por exemplo, no Parque de Exposições Teopompo de Almeida - com sua
longa lista de eventos ao longo do ano - shows com previsão para quatro mil
pessoas alcançarem cifras superiores a dez, pela mais consciente e completa
irresponsabilidade de seus produtores. Este registro é impressionante, se
levarmos em conta ainda que são poucas as iniciativas com efetiva atenção às regras
básicas, como é o caso do Festival de Inverno Bahia.
O
fazer sem conhecer é também um erro comum e perigoso. Muitos profissionais da
cultura desconhecem as obrigações e procedimentos de segurança, limitando-se apenas
a tornar “realizável” sua arte. Seja na área da música, do teatro, da dança e
em outras artes onde a montagem de estruturas para apresentação implica em
fatores diversos, os riscos só podem ser amenizados pela efetiva
profissionalização dos seus realizadores e pelo acompanhamento próximo dos
órgãos de fiscalização do poder público. Do extintor com data de validade em
vigor à vistoria do corpo de bombeiros; do alvará de funcionamento do
estabelecimento às estruturas que garantem a integridade física do público em
caso de uma evacuação de emergência, estes são fatores fundamentais que precisam
tomar as pautas dos debates públicos e dos meios de comunicação. Principalmente,
precisam ser acompanhados de perto, como paulatinamente vem sendo pela
administração pública local, muito embora o caminho seja longo até ser
satisfatório.
Burlar
as normas de segurança, como qualquer outra forma de “dar um jeitinho”, é uma
prática que precisa ser deixada de lado, em respeito a tudo aquilo que
almejamos melhorar como cidadãos e seres humanos. Não podemos nos pautar em
querer ser capazes de receber uma Copa do Mundo, uma Olimpíada ou pontuar
índices altos de alfabetização da população apenas para entrar para rankings internacionais,
somente para que não fiquemos mal na fita. As estruturas para que eventos como
esses ocorram devem ser consequência e não razão da mudança; mudança esta que
de fato não existe se acontece sempre para atender demandas externas e
interesses menores. Esta mesma lógica serve para que atuam na cultura e em
outras áreas que lidam com públicos diversos em suas cidades e regiões.
Não
se trata de sermão, apenas não dá para conviver com notícias de catástrofes
anunciadas pela mais pura falta da responsabilidade de todos nós.
Quem (en)canta nossa infância?
Por Marcelo
Lopes
Passei
o dia ouvindo Palavra Cantada, uma das propostas mais interessantes de músicas
para o público infantil das últimas décadas, que tratam com respeito,
inteligência e muito talento o universo dos pequenos. Formada em 1994 por Paulo Tatit e Sandra Peres, a dupla se destaca por canções infantis de linhas
marcantes, com um cuidado especial na construção das letras, arranjos e
gravações, envoltos numa sensível poética imaginativa. Um primor.
A
exemplo da dupla, ainda é possível encontrar compositores com ideias criativas
voltadas para esse público, entre eles, nomes conhecidos, como Arnaldo Antunes,
autor de “Lavar as Mãos” e “Criança não Trabalha”; Adriana “Partimpim” Calcanhoto, interpretando, entre outras músicas, “Oito Anos” e “Trenzinho Caipira”; a banda Patu Fu, com um trabalho inteiro dedicado ao seu “Música de Brinquedo”, inteiramente gravado com instrumentos musicais de brinquedos como cornetas
de plástico, xilofones, cavaquinhos, flauta doce, kazoo, glockenspiel
e outras peças da musicalização infantil. Infelizmente, a lei de mercado não
favorece que coisas assim se multipliquem com a mesma proporção da sua
qualidade.
Em
tempos de politicamente correto – onde tudo traumatiza, aleija, ofende, dá
processo e vira debate público – ter e fazer músicas infantis de qualidade é um
desafio mais ingrato que os obstáculos da velha Censura, que vigorou no Brasil
até 03 de agosto de 1988. Penso nisto, não sendo purista, mas comparando dois
períodos completamente diferentes, em que o critério de mediação é a qualidade
de conteúdos que propiciam uma vivência saudável para cabeça das crianças que,
em qualquer época, é e precisam ser crianças pra seres felizes.
Por
isso, comecei a fuçar minhas lembranças... e a de outros também, pra não
dizerem que a “nóia” sobre isso é só minha. Um dos registros mais gratos que
tenho da infância, quando se trata de memórias musicais, se chama “A Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes. Não apenas a gravação em disco, mas também os
especiais de televisão, que traziam para a telinha as incríveis histórias
musicadas do universo sonoro do “poetinha”. Um ímpeto criativo similarizado hoje
por alguns artistas consagrados, dedicado a um olhar generoso capaz de povoar
de sonhos o imaginário de milhares de crianças. Canções de Vinícius como “O Pato”, “A Casa”, “A Porta”, entre outras, se tornaram clássicas. Tratavam de
temáticas simples, tangenciadas e extraídas de um mundo menos complicado, onde
a garantia de felicidade podia estar numa simples partida de bolas de gude, num
peão, jogos de pega-pega na rua, esconde-esconde, ioiôs para meninos e ou
elástico, salada-mista e amarelinha para as meninas. Para
não falar apenas de minhas impressões pessoais fui buscar em outro lugar considerações
que acredito pontuarem bem o que digo.
Aretha Marcos, cantora, filha dos também cantores Antonio Marcos e Vanuza, viveu esta
mesma época, com uma peculiar característica em relação às demais crianças: era
ela quem estrelava na TV especiais infantis como A Arca de Noé (1981), além de
outros que se seguiram como Pirlimpimpim
(1982), Plunct, Plact, Zuuum (1983), Plunct, Plact, Zuuum... 2 (1984) e Pirlimpimpim
2 (1984). Suas memórias incluem um misto de diversão e trabalho. Principalmente,
um afetuoso e respeitoso momento à condição da sua infância: “Minhas melhores
lembranças ficam por conta do contato com o universo mágico da palavra poética
do Vinícius, que se fazia entender por mim já naquela época”, resgata Aretha, ressaltando
“o contato com os artistas e profissionais da época, que faziam de tudo para manter
meu olhar infantil e lúdico diante de responsabilidades tão grandes para uma
criança”.
Nos últimos anos vivemos um
fenômeno maciço, preocupante, que encurta a infância, gerando pequenos adultos,
ao tempo em que estica a juventude englobando todas as ideias, práticas e
comportamentos envolvidos nessa longa faixa etária espichada. Um providencial
aumento na faixa ativa de consumo de produtos, bens e serviços. A sexualização infantil é um dos aspectos agregados à este novo perfil consumista, como também
é o aumento da banalização dos temas dedicados às crianças, reflexo daquilo que
os pais também consomem e reproduzem em casa. Na música, veículo de excelência
para a comunicação de comportamentos, é visível o pouco trato com o que se
produz ou se oferta às crianças no Brasil. Ainda segundo Aretha, “existe
público para todos os gostos, por isso mesmo deve haver música eclética, sempre
visando a prestação de serviço cultural, educativo ou festivo que pede a canção
infantil. Acho também que cabe aos pais selecionar aquilo que considerar
adequado para os seus valores e crenças a ser compartilhado musicalmente entre
seus filhos”.
A oferta de produtos culturais/musicais
voltados para este público tão ávido, que consome cada dia mais rápido enquanto
cresce, tende à expansão ainda maior e desenfreada se não houver regulação
específica. Músicas de evidente apelo ao sexo, à violência ou que promovem a
degradação humana são facilmente acessíveis e – pior – estimuladas em meios de
comunicação e outras forma de difusão, sem o mínimo critério prático. A aproximação
entre a criança-adulta e adulto-juvenil dilui estas questões no discurso do “normal”
e do “na moda”, sem levar em conta os prejuízos decorrentes disto. É preciso que
haja uma mediação equilibrada, que não se calque nem na paranoia do politicamente
correto e nem no desbunde do consumo fácil. Todas as opções, daquilo que pode
ser considerado bom ou ruim, estão à vista e à mão.
Ao poder público cabe regular, nunca
censurar. Aos pais, o discernimento do que há de benéfico ao olhar, os ouvidos
e a mentalidade das crianças, com critérios que mexem com a crítica autocrítica,
fundamentada numa educação que muitos nem mesmo puderam ter, mas que é alcançável
na medida do bom senso de cada um. O respeito é componente fundamental ao
critério de ambos, sobretudo o respeito que preserva a criança em sua essência.
De alguma forma, é preciso
resgatar a importância da sabedoria infantil, mesmo nos adultos, tema que,
inclusive, finalizou meu papo com Aretha: “para mim o positivo e negativo está
em tudo, é uma questão do olhar. Ser criança é um estado de alma. Acredito que
independente de idade, devemos manter a criança no canto dos olhos, pronta para
saltar diante da vida e fazer folia. A vida é uma festa onde todos podem ser
convidados, é preciso ser criança para acreditar, e vencer”.
Meu abraço sincero e agradecido a Aretha pelas boas lembranças de infância... dela e minhas.
Meu abraço sincero e agradecido a Aretha pelas boas lembranças de infância... dela e minhas.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O Circo de Soleinildo nos palcos baianos
Por Marcelo
Lopes
Quanto
vale um edifício erguido sobre maciças toneladas de sonho? Um imenso picadeiro armado
entre os mais concretos desejos humanos? E quem nos convence a comprá-lo quando
os ditames do mercado real nos distanciam do essencial à vida e nos vendem, compulsoriamente,
artigos da mais importante futilidade?
O
circo - uma das mais antigas e completas artes de espetáculo no mundo – vive ainda
hoje dilemas entre crise e renovação, em busca de uma renovação que em muitos
casos compromete a sobrevivência de iniciativas com décadas de histórias,
subemergindo sua magia original picadeiro no meio de tecnologias e produções
que muitas vezes fogem a tudo o que o circo sempre foi. Principalmente,
repensar a arte circense é um processo de restabelecimento de um diálogo
criativo capaz de trazer novamente seu público à plateia.
As
sinceras questões que permeiam o hiato entre a vida útil e a arte são a
matéria-prima do espetáculo “O Circo de Soleinildo”, da Cia Operakata de Teatro,
narrada na forma de um circo que não quer morrer, e de personagens que teimam
em interpor a criatividade entre o público e o mundo consumista que o engole. Numa
época em que a arte circense se resignifica sobre os moldes de uma cultura de
mercado, a exemplo da grandiosidade empresarial e artística do Cirque du Soleil, a luta de um pequeno circo mambembe - que tenta sobreviver aliando
falsamente seu nome ao grande empreendedor canadense das artes – o Circo de
Soleinildo impõe-se aos percalços e às desilusões numa história poética, límpida
e comovente.
Repleto
de referências visuais - da composição do cenário a completa textualização
gestual da história - a peça, vencedora do 13º Festival de Cenas Curtas pelo Galpão Cine Horto (MG) em 2012, traz para os palcos a magia deste mesmo circo construído
sobre a ilusão e o sonho. Faz destes elementos peças fundamentais para o entretenimento
e o enternecimento do público, resgatando-o deste universo engolfado pelas
sombras do tempo, fazendo-nos lembrar principalmente que o peso da perda de um
mundo tão povoado de criatividade e valores artísticos não é apenas do artista
circense, mas de todos nós.
“O
Circo de Soleinildo” e o a peça “Colégio Kadija –
Esquete 10” foram os primeiras espetáculos da Temporada VerãoCênico 2013, apresentada dia 9 de Janeiro, no Centro de Cultura Camillo de JesusLima, em Vitória da Conquista. Até o próximo dia 30,
a cidade receberá também as montagens “Entre Nós – Uma Comédia sobre
Diversidade”, “Vidas Secas” e “Iauretê”. As apresentações acontecem sempre às
quartas-feiras e o preço dos ingressos varia entre R$ 1,00 (inteira) e R$ 0,50
(meia). O projeto é uma realização da Fundação Cultural do Estado da Bahia – Funceb que realiza a Temporada ainda em outras cidades nos seis
macroterritórios baianos: Alagoinhas, Barreiras, Euclides da Cunha, Feira de
Santana, Irecê, Itabuna, Jequié, Juazeiro, Mutuípe, Porto Seguro, Teixeira de
Freitas e Valença.
sábado, 3 de novembro de 2012
Watchmen: revolução na linguagem dos Quadrinhos
Por Marcelo Lopes
A
obra Watchmen é uma das principais responsáveis pela linha narrativa adulta que
elevaram as Histórias em Quadrinhos a um patamar diferenciado a partir da
década de 1980 e hoje inspira megaproduções que lotam as salas de cinema.
Sombrio, complexo e repleto de enredos intrincados, o novo perfil destas histórias
– como a trilogia do Batman, do diretor Christopher Nolan – alinha
uma abordagem inovadora sobre heróis e vilões das HQ’s. Watchmen é a referência mais profunda deste novo modelo: uma série de
histórias em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons,
publicada originalmente em doze edições mensais pela editora norteamericana DC
Comics, entre 1986 e 1987.
Considerada um marco importante
na evolução dos quadrinhos, introduziu abordagens e linguagens antes ligadas
apenas aos quadrinhos ditos alternativos, além de lidar com temática de
orientação mais madura e menos superficial, quando comparada às histórias em
quadrinhos comerciais publicadas naquele país. O sucesso de crítica e de
público que a série teve ajudou a popularizar o formato conhecido como Graphic Novel
(ou "romance visual"), até então pouco explorado pelo mesmo mercado.
Diz-se
que Watchmen foi, no contexto dos quadrinhos da década de 1980, um dos
responsáveis por despertar o interesse do público adulto para um formato até
então considerado infanto-juvenil. Watchmen também é a única história em
quadrinhos presente na lista dos 100 melhores romances eleitos pela revista
Time desde 1923.
Sua
adaptação para o cinema foi lançada em março de 2009 e conseguiu agradar em cheio
os fãs da história, um feito extraordinário após mais de vinte anos de
expectativa de ver na telona o ambiente crepuscular e denso dos personagens de
Alan Moore.
Agora,
o co-criador e ilustrador de Watchmen, Dave Gibbons, oferece uma nova versão da
Graphic Novel em vídeo, desta vez acrescentando ação, vozes e sons ao visual já
revolucionário conhecido pelos fãs da série. Neste novo trabalho, todos os
capítulos que compõem a história abordam detalhadamente partes importantes do
enredo: da misteriosa morte do personagem Comediante até o melancólico destino
dos super-heróis e seu importante papel no mundo. Detalhes que não fizeram
parte do longa-metragem, mas que aqui encontram espaço para um diálogo mais
próximo com o público, evidenciando seu relevante papel na história dos
Quadrinhos ao romper com os padrões de sua época.
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